16/09/2012

Mais um pouco sobre mim #2


Desde muito cedo fiquei com os meus avós (paternos). A minha mãe tinha horários muito complicados no seu trabalho, e por isso passava o dia com eles. Eram os meus segundos pais. Lembro-me de berrar desalmadamente para não ir para o infantário para poder ficar com o meu avô, e muitas vezes conseguia. O meu avô era gerente numa oficina de automóveis, e eu passava manhãs no escritório ao pé dele a ouvir o "Jogo da Mala" e a fazer desenhos da "minha marca de roupa". Almoçava com a minha avó, punha-me na brincadeira com o meu tio, e assim levava dias e dias. Nos fim de semanas passeava com eles. O meu avô adorava passear. Todos os domingos almoçava fora, e dava a voltinha do costume pela EN125. 
Quando fui para o ciclo distanciei-me um pouco, pois não podia lá estar todos os dias, mas continuava a visita-los sempre que podia! Aos 65 anos o meu avô reformou-se e começou a passear ainda mais, andava todo contente. Mas havia um senão. Ele fumava muitíssimo, não tinha cuidados com a sua alimentação, e tal como o meu pai, médico não era com ele. Um dia começou a queixar-se de dores no dedo do pé, quando reparamos estava quase preto! Foi imediatamente internado para ser retirado, tinha pé diabético. Durante a sua estadia no hospital, tinha eu 16 aninhos, o meu avó sofreu um equizema pulmonar e foi trazido à vida a muito custo, ficou nos cuidados intensivos alguns dias. Lembro-me perfeitamente da noite em que soube que ele estava entre a vida e a morte. Eu tinha combinado ir ver um filme à casa da minha melhor amiga, e acabei por ir pois naquele momento eu não podia fazer nada...Nunca me senti tão nervosa. Eu tremia por todos os lados enquanto via o filme...No dia seguinte fiz questão de o ir ver. Entrei naquela sala dos doentes críticos, e lá estava ele todo entubado mas de olhos abertos. Vi-lhe as lágrimas a correr pela cara quando me viu. Aos poucos foi melhorando, até voltar para o seu quarto no hospital. Má noticia: Não era suficiente o corte do dedo, tinha de cortar a perna até ao joelho. Assim foi, e passado algum tempo voltou para casa. Nesse dia deixou o tabaco para sempre, mas continuava a comer sem qualquer cuidado, apesar dos diabetes (com direito a insulina e problemas cardíacos que tinha). Não se habituou à prótese para a perna, e começou a ficar prisioneiro da sua própria casa. Morava num terceiro andar sem elevador, e por isso para sair era necessário duas pessoas para o transportar. O namorado chegou a ajuda-lo diversas vezes. Começou a sair 3 ou 4 vezes ao ano, e custava-me tanto vê-lo assim...Uma pessoa que sempre adorou passear, estava preso a uma cadeira de rodas, aos 69 anos de idade...Vários problemas surgiram...insuficiência cardíaca, pedras na vesícula, pulmões cheios de liquido....Era mês sim mês não corridas para o hospital, toda a família vivia em sobressalto. Assim foram 5 anos. Em 2009, depois de muitos dias a sentir-se mal mas sem dizer nada, pediu para ir para o hospital, foi-lhe detectada uma pneumonia. Todos os dias à tarde ia visita-lo e falava um pouco com ele...Todos os dias o via piorar, ao ponto de mal respirar. Lembro-me que o vi pela última vez numa sexta-feira. Nessa mesma noite foi reanimado, e no sábado estava tão mal que não me deixaram vê-lo. 
No domingo lembro-me de acordar cedo pois tinha combinado um trabalho de grupo. Ouvi o telefone do meu pai a tocar, e soube que não era nada bom sinal. Era do hospital, o meu avô tinha morrido. Foi a primeira e única vez que vi o meu pai chorar. Abracei-o a ele e à minha mãe e ali ficamos os três a chorar.Foi bastante estranho porque depois da choradeira invadiu-nos uma grande sensação de alivio. Aquilo não era vida para ele, ele estava bem melhor onde quer que estivesse. Andava muito triste, com muitas doenças, já não era a mesma pessoa dinâmica e brincalhona de outros tempos...Ele não vivia, sobrevivia...2009 foi um ano terrível para mim, o meu avô morreu, o meu pai teve um AVC , e eu andei uns tempos a sentir-me mal sem saber o que tinha.
Uns tempos depois o meu tio foi a uma senhora cá na terrinha que diz ter poderes para ver aquilo que nós não conseguimos ver. O meu tio perguntou-lhe pelo meu avô. A senhora respondeu algo que até para o meu tio que não acredita neste tipo de coisas, passou a acreditar: "O seu pai desce várias vezes quando tem muitas saudades da família, e senta-se na sua cadeira junto à cama a ver-vos. Ele está bem, mas tem muitas saudades dos filhos, mulher e netos, e sempre que pode, vem cá a baixo ver-vos." 
A senhora nunca conheceu o meu avô, não sabia que ele tinha o seu cantinho especial, mas disse palavras que fizeram todo o sentido! Onde quer que ele esteja eu sei que ele está bem, e só queria poder dizer-lhe que tenho muitas saudades dele =)

31 comentários:

  1. A vida tem bons e maus momentos! Mas o importante é aproveitar cada momento...

    ResponderEliminar
  2. A vida é mesmo assim :)
    Bjs e bom fim de semana :)

    ResponderEliminar
  3. O meu avô morreu de cancro do pulmão, vai fazer agora dia 21 deste mês 3 anos.
    E percebo perfeitamente quando dizes que custa muito ver alguém tão activo, independente, que gostava de dar o seu passeio, a definhar de dia para dia, numa cama de hospital, sem apetite, dependente de máscaras de oxigénio...

    ResponderEliminar
  4. Tal como tu sempre cresci com os meus avós não paternos mas maternos. Só de pensar que algo lhes possa acontecer dá-me uma coisinha má. Mas perdi uma tia que era como uma irmã para mim e sei bem o que isso é. Mas também sei que um dia estaremos novamente juntas.

    ResponderEliminar
  5. Tens de te lembrar dos bons momentos que passaste com ele... isso é que fica para sempre :)

    ResponderEliminar
  6. ficam as saudades e a memória dos bons momentos passados, é assim que me lembro do meu avô, que foi e é muito importante na minha vida:)
    beijos

    ResponderEliminar
  7. Até me emocionei ao ler o que escreveste. Fez-me lembrar o meu avô também.
    Que saudades!
    Beijinho querida*

    ResponderEliminar
  8. Se há coisa que me emociona a sério é a relação entre os avós e os netos! Gostei!

    ResponderEliminar
  9. Também me emocionei com o que escreveste por termos uma história tão parecida. Também fui criada pelos meus avós paternos, também vi o meu pai chorar pela primeira vez quando o meu avô faleceu... Eles vivem sempre nos nossos corações!

    ResponderEliminar
  10. Olá Pink :)

    Emocionei-me muito a ler a tua história porque a minha é muito semelhante: o meu avô apanhou HIV numa transfusão que lhe fizeram no hospital em 1990 (na altura ainda não era obrigatório fazerem testes ao HIV do sangue doado) e desde que me lembro que o meu avô vivia doente e com problemas de saúde. Apesar disso foi um avô fantástico e brincalhão, e deixou-me com as melhores memórias do mundo. Obrigada por me teres feito recordar um pouquinho dele :)

    Beijinhos :)

    ResponderEliminar
  11. Ele está a cuidar de todos vocês :)

    Beijito* grande

    ResponderEliminar
  12. O teu avô devia ser uma pessoa especial, deves guardar os melhores momentos que tiveste com ele bem guardados no teu coração! Bjinhos***

    ResponderEliminar
  13. Por vezes, apesar de ser cruel e díficil, é melhor assim! :(
    Mas de certeza que ele está a olhar por todos vós! :)

    ResponderEliminar
  14. Também cresci com os meus avós devido aos horários dos meus pais, e acho que com a dinâmica que os meus avós têm, principalmente do meu avô, não ia gostar de o ver preso em casa :/ E também acredito que lá de cima os nossos familiares estejam-nos a ver :)

    ResponderEliminar
  15. Que história tão especial. O teu avô está melhor assim, onde quer que esteja e esta é uma homenagem que lhe fazes. Bom domingo.

    ResponderEliminar
  16. Que historia,fiquei emocionada digo-te ja..Faz-me lembrar da minha bisavo :/
    Tens que te lembrar dos bons momentos que passasteis e acreditar que ele olha por voces todos ..
    Beijinhos :*

    ResponderEliminar
  17. entendo a parte do "alívio", vermos alguém de quem gostamos tanto a sofrer é uma crueldade... acaba por lhe ser devolvida alguma liberdade... eu acredito nisso!

    ResponderEliminar
  18. Fiquei mesmo emocionada. Compreendo bem, também me custou muito a perda do meu avô

    ResponderEliminar
  19. Os meus dois avôs morreram no ano em que nasci, portanto posso dizer-te que pelo menos tiveste a sorte de conheceres, aprenderes entre tantas coisas que pudeste fazer com ele. Tenho a certeza que ele sabe que tens saudades dele, tal como os meus sabem, que eu adoraria que tivessem estado mais na minha vida :') <3

    ResponderEliminar
  20. olaaa fofinha
    oh eu sei como é essa situação.

    olha arrepiaste-me
    espero que corra tudo bem daqui para a frenteee
    beijinhoo

    ResponderEliminar
  21. Completamente arrepiada não consigo dizer nada...

    ResponderEliminar
  22. Fiquei com a lágrima no canto do olho.
    Beijinhos grande

    ResponderEliminar
  23. Fiquei a chorar com a historia do teu avó. Quando perdemos pessoas importantes na nossa vida, ficamos frageis, mas sabemos que onde estão ja nao sofrem e isso é um grande alivio, mas claro a recordaçao a saudade fica. Beijinho e muita força.

    ResponderEliminar
  24. nice post)
    i like your blog
    Hope we can follow each other. :)

    http://matr0sha.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  25. Emocionei-me mesmo a ler o que escreveste! Pensa que é melhor assim do que realmente continuar a sofrer e guarda as melhores recordações que tens dele, isso é que é importante.

    ResponderEliminar
  26. Oohhh, este teu post emocionou-me tanto. Fiquei com lágrimas nos olhos. Fez-me lembrar da minha avó que também já partiu. :(

    bjs

    ResponderEliminar
  27. Entendo-te bem nas visitas ao hospital e no alivio que sentiste. Custa sempre mas a verdade é que eles as vezes só cá estão a sofrer :(

    ResponderEliminar
  28. Agora entendo a nostalgia comum...
    Só conheci a minha avó em vida e devo dizer que a L. tem uma sorte de pelo menos conhecer os avós em vida.

    Bjs

    ResponderEliminar
  29. O teu texto é emocionamente. Lamento muito por teres passado por isso. Infelizmente, sei um pouco o que isso é. Mas apesar de custar muito, ás vezes é o melhor!

    ResponderEliminar
  30. Os avós fazem realmente muita falta, principalmente na altura da infância.

    ResponderEliminar