19/05/2015

Também eu não sou perfeita


Acabei hoje de ler o livro da Jessica Athayde e revivi com ele algumas sensações/ medos que anteriormente vivi. Tal como ela também eu sofri (ou sofro porque nunca se deixa de sentir) ansiedade/ ataques de pânico. 
Corria o ano de 2009 quando vi o meu pai ter um avc na minha frente. Nunca me irei esquecer e não desejo a ninguém, ver o próprio pai, aquele que nos deve proteger, completamente desprotegido e fora de si, sem se conseguir mexer ou falar. Esse momento marcou-me inevitavelmente e como sempre tive tendência de não partilhar sentimentos e pensamentos com ninguém, guardei para mim o que sentia na altura. Tentei ser forte por fora, apoia-lo na recuperação e apoiar a minha mãe mas sempre desfeita por dentro.
O que aconteceu meses depois foi o inicio de um período bastante negro da minha vida. Certa noite de tempestade acordei com um barulho terrível em casa. O barulho pareceu-me na altura exactamente aquele que me fez acordar na manhã de 2009 em que o meu pai caiu no chão. Ai não me consegui controlar. O coração começou a bater desenfreadamente no meu peito, comecei com suores, tremores e só tive um pensamento na minha cabeça - não consigo controlar isto ou acalmar-me, vou morrer!
Foi ai que percebi o quão fácil era perder o controle e ser inundada por pensamentos negativos! Desde essa noite foram vários os episódios de pânico que tive, sempre com pensamento irracionais, negativos que me faziam pensar que o coração ia explodir de tanto bater e que eu iria morrer. 

Tal ansiedade começou a controlar a minha vida de tal modo que já praticamente não saia de casa. Era o medo de ter um ataque de pânico num sitio longe, num sitio cheio de gente, onde me sentiria desconfortável e seria bem mais difícil voltar a acalmar-me. Durante meses disse não a passeios, viagens e outros que tais com medo de perder o controle e demonstrar a quem estava comigo que tinha medos e que não era perfeita. Diga-se de passagem que estes sentimentos foram sempre guardados para mim e se partilhei isto com uma pessoa foi muito.

Chegou a um ponto que tive de dizer chega! Um pouco com vergonha de admitir (preconceito parvo que existia em mim) decidi ir a um psicólogo e foi realmente o melhor que fiz! 
Com ele aprendi o que tinha (ansiedade generalizada com ataques de pânico esporádicos) e aprendi a controlar tudo isso. Sem uso de qualquer medicamentos, só com o poder da mente fui melhorando. Sorte a minha sou uma pessoa bastante racional (já dizia o médico que que seguiu) e portanto com as ferramentas certas aos poucos fui melhorando. Desconstruir pensamentos negativos, ocupar o meu tempo, fazer exercícios de relaxamento antes de dormir e ao acordar foram técnicas indispensáveis para eu melhorar. Aos poucos fui saindo de casa, arriscando e dois anos depois consegui começar a ter uma vida completamente normal.
A primeira grande prova à minha resistência e capacidade mental deu-se em 2012 quando pela primeira vez em algum tempo viajei para fora de Portugal. Confesso ia nervosa, sabia que o desconhecido e ainda mais na companhia de pessoas mais ou menos estranhas iriam facilmente despoletar um ataque de pânico. Antes de ir tive de desconstruir esses meus pensamentos negativos e pelo sim pelo não levei comigo uma caixa de calmantes para tomar caso realmente me sentisse a panicar. Até hoje essa caixa continua no meu armário intacta, nunca tomei nenhum comprido. 

Para quem nunca passou por isto pode achar que é a maior parvoíce mas digo-vos, esta "doença" pode realmente controlar-nos e não é qualquer um que ultrapassa com leveza. Eu também não ultrapassei. Foram ANOS e mesmo assim ainda hoje vos digo não estou curada. Já me sei controlar quando a ansiedade chega, já não tenho um ataque de pânico à anos mas ainda me sinto pouco confortável com algumas situações. Posso-vos dar por exemplo um exemplo: Adoraria ir aos EUA mas ainda não me sinto capaz de passar 8 horas num avião ou estar no outro lado do mundo. Sei que facilmente entraria em panico e a coisa poderia não correr bem. Sei também que o truque é arriscar, como tantas vezes já fiz, e sei que um dia o farei relativamente a esta situação, só não o farei para já.

Na altura vivia isto como tabu, como uma vergonha, algo que só eu devia passar....Aos poucos percebi que infelizmente é uma coisa comum de acontecer e que precisa de ser desmistificada.

Não sou de por coisas assim tão pessoais por aqui mas o livro da Jessica realmente fez-me perceber a importância de partilhar experiências e quem sabe ajudar alguém quem passa pelo mesmo.
A verdade é que eu sou a Pretty in Pink, não sou perfeita e sofro de ansiedade generalizada. Não tenho vergonha nenhuma nisso, aliás sinto-me bastante forte e orgulhosa comigo própria pois sei que não é fácil ultrapassar esta doença e eu felizmente, tenho conseguido fazê-lo. 

25 comentários:

  1. Não há que teres vergonha de nada! Só mostras que és forte e que estás a ultrapassar essa doença!
    Um beijinho muito grande!

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  2. Também acho que não deves ter vergonha de nada! Cada vez oiço mais testemunhos de pessoas com situações semelhantes... e acredito que quanto mais se falar nisso mais facilmente outras pessoas que possam eventualmente sofrer do mesmo percebem que não estão sozinhas e que precisam de ajuda médica! Um grande beijinho e parabéns pelo teu testemunho :)

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  3. Parabéns pelo testemunho! Sei exactamente do que falas e como é preciso combater a mente todos os dias, até naqueles que pensamos estar bem. Nós conseguimos, somos fortes, temos de conseguir.

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  4. Eu descobri em adulta que te tenho fobia de locais apertados, abafados, com muita gente ... e descobri isso na primeira fila do Rock in Rio e no comboio a caminho do Red Bull Air Race .. portanto tive de me concentrar na respiração e em alguém ou alguma coisa para ler. Mas assusta.. não termos controlo sobre o nosso cérebro. Nunca recorri a médicos mas também evito ver concertos lá à frente ou estar em locais com muita gente ou apertos.. e se tenho de ir seguro com muita força a mão de alguém e caminho sempre a olhar para o chão ou à procura de ar com o nariz empinado à procura de ar. É de doidos mas resulta :D

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  5. Excelente publicação!
    Agora fiquei curiosa quanto ao livro.

    Obrigada pela partilha.

    beijinhos
    food&emotions
    http://fefoodemotions.blogspot.pt

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  6. Gostei do teu testemunho!
    Eu tbm n gosto de muita multidao e tho coiso de me acharem gorda.

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  7. Aconteceu-me o mesmo. Também vivi momento muito difíceis mas guardei sempre para mim e fui tentando controlar a ansiedade da melhor maneira e sem dar grande importância, mas e desde que as coisas no meu trabalho pioraram parece que tudo desencadeou, tive três ataques de pânico numa semana, andei a ansioliticos, não me apetecia fazer nada, nem sair de casa, vivia com medo de sentir aquilo outra vez porque parece realmente que vamos morrer...o pior disto é que para os outros, isto é um exagero e não dão valor nem importância...porque não sabem o isso é, eu julguei que me estava a dar um avc, juro! Agora já estou mais calminha, mas de vez em quando lá vem a pontada...dizem que a meditação ajuda!

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    1. Ajuda sim senhora, a própria Jessica fala nisso :) Mas ela fala numa coisa que também me apercebi quando tentei meditar...É muito fácil vir-te 50 mil pensamentos à cabeça no inicio da meditação, não é nada fácil tornar a meditação eficiente, mas ajuda e muito quando se consegue!

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  8. No meu antigo trabalho cheguei a ter ataques de pânico nas noites de domingo, já era algo que não conseguia controlar e passou a acontecer com regularidade em outras noite, só de pensar que tinha que ir para aquele trabalho. Coloquei a saúde à frente de tudo e saí do trabalho e tudo passou...

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  9. Já tive de andar a ansiolíticos ,já pensei que iria morrer parece brincadeira mas não é agora consigo sentir quando está para acontecer e precaver-me mas um ataque de pânico não é para brincar é bastante grave ainda hoje sofre de ansiedade.

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  10. Nunca me aconteceu porque até hoje consegui controlar, mas já vi de perto a acontecer a uma amiga minha e é assustador.

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  11. Nunca passei por isso, mas sei que pode acontecer a qualquer um, por mais forte que a pessoa seja!
    Ainda bem que partilhas, porque é um problema mais comum do que imaginamos e só perdendo a vergonha, o medo e procurando ajuda é possível superar! Ou pelo menos controlar, como já consegues fazer! Beijinho ;)

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  12. Eu sofro de ansiedade. Ainda bem que identificaste o teu problema e o conseguiste rresolver, plr vezes temos de conseguir conversar con outras pessoas sobre o que nos assusta, uma coisa que eu ainda não consigo fazer a 100%. Mas tudo se aprende, não é verdade?

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  13. O único problema que tenho - e admito que o tenho - é, antes de adormecer, sou invadida por pensamentos menos bons e fico muito tempo a chorar compulsivamente. Não me lembro quando começaram e sei a razão para eles acontecerem, mas nunca procurei ajuda. A verdade é que arranjei uma forma de me acalmar sozinha e hoje é muito raro isso acontecer... Mas fico mesmo feliz por conseguires controlar porque o teu caso foi bem mais grave. O problema está todo em nós, nós só temos que arranjar forma de o combater!

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  14. Quero imenso, imenso ler a história da Jessica. Já sei que me vou identificar em vários pontos. Não fazia ideia que ela tinha passado por tanto e quando ouvi falar disso pela primeira vez já não me senti tão 'estranha'. Porque eu também sofro de ansiedade. E o sistema nervoso atrapalha-me em muita coisa. Em coisas que qualquer pessoa pensa que não faz sentido, mas acontece. E por isso às vezes sinto-me 'estranha'. Mas não tenho problema em dizer. Já estou a habituada a ouvir sempre os mesmos comentários e já consigo não lhes dar importância. Cada um sabe de si e da sua vida, não deviamos julgar nada, nada mesmo. É uma doença que a meu ver nunca se cura. Mas podemos ter muitas melhoras e passar tempos e tempos sem nenhum sintoma e até esquecer que a ansiedade existe. É tudo uma questão de controlo. No meu caso, infelizmente, não consigo ser assim racional. Mas já estive bem pior. Já posso dizer que passo bem os meus dias. E com tranquilidade. Ainda bem que conseguiste dar a volta à situação! Isso é excelente! Sem duvida que hei-de ler este livro ;D

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  15. Eu sei bem o que é sentir isso. Felizmente não o sofro com regularidade mas, ao longo da minha vida, já vivi um ou dois episódios e é uma sensação horrível. Num deles a tensão foi tanta que nem me lembro como fui parar à cama. Fico feliz por teres procurado ajuda e por te sentires melhor, muitos não o fazem devido ao tal preconceito e é um erro enorme.

    Marta Rodrigues, Majestic xx

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  16. Acho que temos de falar, compreendo-te tão bem. Já passei pelo mesmo. Na altura pensei que o meu caso era (quase) único, mas hoje apercebo-me que é muito mais comum do que pensava.
    =)

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  17. Nunca passei por isto, mas acredito que não seja nada fácil, precisamente porque perdemos o controlo. É um assunto bastante sério que não pode ser ignorado!
    Fico feliz por teres conseguido fazer progressos tão positivos :)
    Quero muito ler esse livro.

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  18. r: Muito, muito obrigada! Não é mesmo nada fácil aceitarmos os nossos defeitos

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  19. Parabéns pela maneira frontal e honesta como falas-te! Ainda bem que já estás melhor!!!

    Bjxxx

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  20. Parece ótima essa leitura <333

    http://gotasdecaffe.blogspot.com.br/

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  21. Não sabia da existência desse livro :P
    Não sei se ainda há muita gente a achar que problemas psicológicos são «ridículos» ou «uma estupidez», mas se se pensar com consciência percebe-se que não são, apesar de dependerem mais da pessoa do que outras doenças. Não imagino o que é assistir a um AVC ou outro ataque de uma pessoa, quanto mais de uma pessoa querida, e não duvido de que deixe cicatrizes e medos profundos. Há imensos acontecimentos que podem ser traumatizantes, mas esse supera a maioria. Muitos parabéns por teres ultrapassado e confrontado isso - fizeste muito bem em admitir e procurar ajuda, foi uma decisão sensata que é muito difícil de tomar. Mesmo sem «triggers» é fácil entrar numa espiral de pensamentos negativos, com eventos que os despoletam - como esse - ainda mais. A parte boa é que conseguiste enfrentar e sair vitoriosa ;) podes não estar completamente «livre» de vestígios de tudo isso, mas a cura não implica isso. E mesmo que não possas limpar o histórico do que te aconteceu e daquilo por que passaste, podes ser feliz com isso e controlar os sentimentos negativos de forma a que não prejudiquem a tua vida - como sabes fazer ;)
    Mais uma vez parabéns pela força que reuniste para «passar por cima» de todas essas coisas más ;)

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  22. Este ano, pela primeira vez tive ataques de pânico, e agora sim consigo perceber o que é. O meu irmão passou um ano mau no ano passado, e nunca o tinha conseguido entender bem. O psicológico é mesmo lixado! :/

    Isa M., Tic Tac Living

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  23. Tive um namorado que também tinha ataques de pânico assim de vez em quando, nunca falou muito sobre isso, mas com calma aquilo lá lhe passava e ele ficava bem. Felizmente, aconteceu muito poucas vezes. No entanto, recordo-me da primeira vez que aconteceu, e acho que estava mais eu em pânico, do que ele.

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